Almada esteve sob cortes rotativos de água durante
Duração final · 2 de julho a 2 de agosto de 2026
Contado de 2 de julho de 2026, quando os SMAS de Almada admitiram que a procura superava a água captada diariamente nos furos e iniciaram a gestão rotativa da rede em todo o concelho, até 2 de agosto de 2026, quando os SMAS anunciaram que não estavam previstos cortes noturnos para a semana seguinte. Nunca foi um corte contínuo: os cortes giravam por zonas. E não é uma resolução: os SMAS falam em “apenas uma fase de testes” e podem reativar as medidas de imediato, a situação de alerta mantém-se até 31 de agosto de 2026 e a estabilidade estrutural só é esperada no início de 2027. início · fim
Dados abertos · IPMA · INE · SNIRH · julho-agosto 2026
Atualizado: 6 ago 2026

Cortes de água em Almada.

Durante 31 dias, de 2 de julho a 2 de agosto de 2026, mais de 100 mil pessoas em Almada, sobretudo na Costa da Caparica, Charneca, Sobreda, Capuchos, Laranjeiro e Feijó, viveram cortes rotativos de água, alguns com mais de 12 horas seguidas. Não foi a qualidade da água (os SMAS de Almada têm o selo ERSAR de “Qualidade Exemplar da Água 2025”): foi capacidade. O consumo foi o mais alto em 75 anos e a procura concentrou-se onde a rede é mais frágil. Uma petição juntou quase 4 mil assinaturas, 1.500 pessoas saíram à rua e uma moção de censura foi apresentada e rejeitada. Os cortes pararam, mas a situação de alerta mantém-se até 31 de agosto e os SMAS chamam à calma atual “apenas uma fase de testes”. Eis o que mostram os dados abertos.

31 dias
duraram os cortes rotativos
100 mil+
pessoas afetadas
12+ h
corte mais longo
75 anos
consumo mais alto de sempre
46,6%
Costa da Caparica: 2.ª residência
3971
assinaturas na petição
34/100
índice de satisfação SMAS
2+3+3
furos novos: a funcionar/plano

1 · A crise, em termos humanos

Mais de 12 horas seguidas sem água na Costa da Caparica (Diário de Notícias); a 6 de julho, há moradores que relatam seis dias sem água fiável (Observador). um caso relatado à DECO PROteste: uma casa na Costa da Caparica ficou sem água das 16h às 23h, 7 horas seguidas, sem aviso prévio. Uma rutura na rede na Charneca da Caparica (N377) foi reportada aos SMAS quase todos os dias desde 26 de junho, mais de 9 dias seguidos até 5 de julho, uma semana inteira antes do pico de calor. Cafés e restaurantes na Costa da Caparica, em plena época balnear, obrigados a fechar ou recusar serviço a meio do dia por não conseguirem garantir água para higiene e preparação de refeições (Diário de Notícias · O Almadense). A 7 de julho, a Unidade de Saúde Familiar Costa do Mar fechou às 13h por interrupção do fornecimento de água, segundo aviso oficial afixado à porta; as consultas da tarde e tratamentos de enfermagem foram remarcados (RTP), e os bombeiros voluntários de Cacilhas disponibilizaram água de um veículo tanque tático florestal com cerca de nove mil litros, ao longo de terça-feira, 7 de julho, a pedido da junta de freguesia, para necessidades básicas em casa, não para beber. A junta comprou também um bidão de inox de mil litros para distribuir aos moradores mais vulneráveis (Diário de Notícias). É isto que “cortes de água” significa, antes de qualquer gráfico de temperaturas ou tarifas:

Aviso oficial afixado na porta da USF Costa do Mar: “Unidade funcional encerrada. Por motivo de interrupção do fornecimento de água. Pedimos desculpa pelo incómodo”, datado de 7 de julho de 2026.
O aviso de encerramento afixado na USF Costa do Mar, 7 de julho de 2026 (RTP).
O que disseram os moradores
2 jul 2026 · Moradora da Costa da Caparica · Correio da Manhã
Nem para tomar banho, nem para cozinhar, nem sequer beber. É uma falta de respeito.
3 jul 2026 · Gonçalo Bouças, morador da Charneca da Caparica · O Almadense
Nos últimos três dias, sempre que chego a casa por volta das 20h, já não há água... uma pessoa vem do trabalho e não pode tomar banho.
3 jul 2026 · João Vieira, morador do Feijó · O Almadense
Nunca sabemos a que horas vai faltar a água... por vezes começamos a tomar banho e não conseguimos terminar.
8 jul 2026 · Carolina Assis, organizadora do cordão humano de 8 de julho · TSF
Todos os dias é uma incógnita. Eu levanto-me de manhã e eu não sei o que vou poder fazer.
9 jul 2026 · Emanuel Rodrigues, dono de um salão na Costa da Caparica · Euronews
Há uma semana e meia que não sei o que é faturar acima de 100 euros.

última verificação: 6 de agosto. Os cortes rotativos terminaram a 2 de agosto, ao fim de 31 dias, mas a título de teste: os SMAS anunciaram que “não estão previstos cortes noturnos no abastecimento” e sublinharam, na mesma nota, que “esta é apenas uma fase de testes”, com as medidas a poderem ser reativadas “de imediato”. A situação de alerta mantém-se em vigor até 31 de agosto e a rega continua faseada. As reservas médias estavam em 78% a 30 de julho, e a 6 de agosto os SMAS passaram a publicar um painel público do seu nível. A estabilidade estrutural continua apontada para o 1.º trimestre de 2027. A moção de censura do PSD foi rejeitada a 22 de julho; a análise da Provedoria de Justiça não tem conclusões públicas

2 · A onda de calor

A temperatura máxima estimada em Almada chegou aos 38,7 °C a 02/07/2026, acima da média nacional de 37,3 °C nesse dia. O calor dispara o consumo de água (rega, duches, piscinas) no momento em que chega a população balnear. É um fator entre vários, não a história toda.

1/712/7
Temperatura máxima diária, Almada (°C, IPMA). Janela de 20 dias: um pico acentuado, não um “recorde” (sem normal climatológica).
Temperatura máxima estimada por concelho a 02/07/2026 (°C, IPMA). Eixo começa em 36 °C para mostrar a diferença.

3 · A pressão do verão

Isto já não é só um dado de 2021. Os SMAS registaram o consumo de água mais elevado em 75 anos no concelho de Almada, um crescimento de 4,3% no 1.º semestre de 2026 face a 2025 (a média histórica é de ~2%/ano), segundo o Jornal de Notícias. A 8 de julho, a câmara cita um consumo diário superior a 300 litros por habitante em Almada, quase o dobro da média nacional (cerca de 180 litros por habitante/dia) (RTP · ECO). O crescimento concentra-se exatamente onde os cortes doem mais: Charneca da Caparica +15,0%, Sobreda e Lazarim +15,0%, Costa da Caparica +14,0%. Pragal, Almada, Cacilhas e Cova da Piedade mantiveram-se estáveis ou baixaram. A razão estrutural: o concelho de Almada, no total, é normal, com 17,0% de 2.ª residência, abaixo dos 18,5% do país, mas a carga concentra-se na orla, onde 6408 dos 13 765 alojamentos da Costa da Caparica (46,6%) são 2.ª residência. No verão enchem-se e a procura descola da população residente.

Crescimento do consumo de água por freguesia vs a média do concelho, 1.º sem. 2026 vs 2025 (Jornal de Notícias).
% de alojamentos que são 2.ª residência (INE, Censos 2021).

4 · O aquífero de que Almada bebe

O abastecimento de Almada é 100% subterrâneo, do aquífero T3 · Bacia do Tejo-Sado / Margem Esquerda: por isso a resposta são novos furos, não um novo rio. A rede oficial de quantidade tem 122 estações neste aquífero; só 52 estão ativas, e 12 ficam na área de Almada (4 ativas).

Estações de monitorização de águas subterrâneas · aquífero T3 (SNIRH / APA)…

Estações de monitorização de águas subterrâneas · aquífero T3 (SNIRH / APA)
Ativas (52)Inativas (70)

Cada ponto é uma estação de monitorização do aquífero da margem esquerda do Tejo-Sado. Passa o rato para o código e o estado.

5 · Como se chegou aqui

Duas falhas diferentes, com um ano de intervalo. Em agosto de 2025, as condutas rebentaram: duas roturas de grandes dimensões cortaram a Costa da Caparica. Em 2026, o sistema ficou sem capacidade, nas palavras dos próprios SMAS: procura acima do que os furos captam por dia. A 5 de julho, o modo de 2025 regressou, somando-se ao racionamento. Os avisos antecedem a onda de calor em semanas. O racionamento durou 31 dias e foi desmontado em três passos oficiais, entre 26 de julho e 2 de agosto.

3 ago 2025Rotura “de grandes dimensões” numa conduta adutora deixa Raposo, Lazarim, Costa da Caparica e Monte de Caparica sem água; as falhas repetem-se durante dias.
6 ago 2025Segunda rotura de grandes dimensões, na conduta junto ao IC20; Costa da Caparica novamente sem água.
7 ago 2025IL chama-lhe “inaceitável”; a CDU culpa “a recusa sistemática do atual executivo municipal em investir” nas redes.
12 out 2025Autárquicas: Inês de Medeiros (PS) reeleita com 29,1%; o Chega elege os primeiros vereadores em Almada.
17 nov 2025Acordo de governação PS-CDU: a presidência dos SMAS passa para a CDU; acordada auditoria externa.
2 dez 2025Luís Palma (CDU) aprovado presidente dos SMAS; a presidente da câmara fica como 1.ª vogal.
26 jan 2026Orçamento SMAS 2026: 39,8 milhões de euros, 7,96 de investimento. PSD critica a subida das tarifas; Chega lembra as falhas de 2025.
5 jun 2026Os cortes diários regressam à Costa da Caparica; um movimento local chama-lhes “inaceitáveis”.
9 jun 2026A Junta da Costa da Caparica exige respostas: o problema “está identificado há muitos anos e não há desculpa para não ter sido ainda resolvido”.
21 jun 2026Nasce a petição “Fim dos cortes frequentes de água em Almada”, antes da onda de calor.
26 jun 2026Uma rutura na Charneca da Caparica (N377) começa a ser reportada quase todos os dias aos SMAS, mais de uma semana antes do pico de calor.
2 jul 2026Pico de 38,7 °C. Os SMAS afirmam: “a procura global tem sido superior à água que conseguimos captar diariamente nos nossos furos”. Começa a gestão rotativa.
3 jul 2026Um furo novo em funcionamento, outro até ao fim de julho, 3 em licenciamento, 3 em projeto. A presidente pede desculpa na Antena 1. A ministra do Ambiente: “temos reservas de água”.
4 jul 2026Torna-se público que a ERSAR pediu esclarecimentos aos SMAS. A petição passa das 3.000 assinaturas; protestos anunciados.
5 jul 2026O modo de 2025 regressa: nova rotura numa conduta adutora corta seis zonas (Monte de Caparica, Lazarim, Palhais, Alto do Índio, Vale Flores e Costa da Caparica); os SMAS falam em condutas “no final do seu ciclo de vida”. Petição em 3.971.
6 jul 2026Um movimento de cidadãos concentra-se à porta dos SMAS a exigir soluções, com moradores a relatar seis dias sem água. Luís Palma (SMAS) diz que a crise deve estabilizar ainda em julho, com os novos furos. A câmara ativa um plano de contingência e cria um gabinete de crise. No plano político, o PSD anuncia uma moção de censura ao executivo PS-CDU.
7 jul 2026A USF Costa do Mar (Unidade Local de Saúde Almada-Seixal) encerra por interrupção do fornecimento de água, segundo aviso oficial afixado na unidade e fotografado pelo Movimento Futuro da Costa. A junta da Costa da Caparica pede aos bombeiros de Cacilhas que distribuam água (9 mil litros disponíveis), dizendo que a iniciativa deveria ser da Proteção Civil e da câmara. A SIC Notícias relata uma semana de falhas sucessivas, com moradores e comerciantes em dificuldade para evitar fechar. A ministra do Ambiente diz que Almada é “talvez o município com maiores perdas de água” do país (mais de 35%) e que não recebeu qualquer alerta prévio da câmara. À noite, a presidente Inês de Medeiros anuncia que vai proibir toda a rega, pública e privada, na esperança de recuperar alguma folga em duas a três semanas, e diz que os reservatórios estão “em limites muitíssimo baixos”; o BE responsabiliza PS, PSD e CDU pela gestão dos SMAS ao longo dos anos.
8 jul 2026Com a rotura reparada, o abastecimento regressa de forma faseada, mas mantêm-se cortes, baixa pressão e horários irregulares em várias zonas. A câmara e os SMAS decretam uma situação de alerta, que inclui uma lista alargada de usos proibidos, cortes totais de água das 22h às 6h (na primeira noite, 15 localidades em 6 freguesias) e um consumo diário superior a 300 litros por habitante, quase o dobro da média nacional. Ao fim da tarde, o cordão humano convocado junta cerca de 1.500 pessoas e transforma-se numa marcha do Centro Comercial O Pescador até à rotunda de acesso ao IC21, com corte de trânsito e pedidos de demissão da presidente da câmara.
9 jul 2026A presidente Inês de Medeiros admite uma “realidade difícil”: os reservatórios estão “com 10% quando deviam estar a 60%” e o objetivo é reduzir o consumo para metade nos próximos dias. Na RTP, atribui a crise a “desvios de rede” inesperados, respondendo à ministra que a câmara já propôs no PRR 10,7 milhões de euros para reforçar a rede. A ministra do Ambiente visita o concelho e anuncia um novo furo até ao fim de semana (mais cerca de 20% de capacidade), mantendo a estimativa de duas a três semanas. À noite, seis localidades a ocidente (Trafaria, Raposeira, Corvina, Fonte Santa, Banática e Porto Brandão) ficam sem água das 22h às 6h. Moradores e comerciantes continuam a queixar-se de cortes e de falta de informação.
10 jul 2026A situação de alerta entra no terceiro dia. Os cortes noturnos rotativos das 22h às 6h continuam a girar pelas freguesias (15 localidades numa noite, seis na seguinte) e a câmara anuncia condicionamentos adicionais a partir de sábado, à espera de que o novo furo e a redução do consumo aliviem a pressão sobre os reservatórios.
11 jul 2026Primeiros sinais de recuperação: a APA afirma que os reservatórios “estão a recuperar os níveis” e que as medidas “produzem resultados”, com o novo furo (mais ~20% de capacidade) a entrar em serviço ao fim de semana. Ainda assim, os cortes noturnos rotativos continuaram na noite de 10 para 11 (Feijó, Laranjeiro, Vale Flores, Barrocas, Cova da Piedade e Chegadinho), as restrições mantêm-se e a normalização total só é esperada dentro de duas a três semanas. A Provedoria de Justiça abriu uma análise às falhas, na sequência de queixas de moradores.
12 jul 2026O novo furo de captação (GW1) entra em serviço, a funcionar com um gerador e a aumentar a capacidade em cerca de 20%. A câmara divulga um calendário de cortes noturnos das 22h às 6h, por rotação pelas freguesias, até 17 de julho. A situação de alerta e as restrições mantêm-se; a normalização total continua estimada em duas a três semanas, com a estabilidade estrutural apontada para 2027.
13 jul 2026Segundo dia do novo furo (GW1) em serviço. Os SMAS quantificam o reforço em mais 60 m³/hora e frisam que o furo entrou ao serviço antes do previsto, depois dos ensaios necessários para garantir a qualidade da água. A situação de alerta e as restrições mantêm-se e o calendário de cortes noturnos das 22h às 6h continua a girar pelas freguesias (a 13 de julho, o lado ocidental: Charneca, Aroeira, Costa da Caparica, Trafaria e outras). O restabelecimento é gradual e a normalização total continua estimada em duas a três semanas.
18 jul 2026As reservas médias sobem para 40%, o patamar da escala dos SMAS em que o plano prevê “avaliação da situação e possível redução do número de horas de corte”. Os cortes noturnos mantêm-se, mas passam a estar em revisão.
22 jul 2026De madrugada, após mais de cinco horas de discussão, a Assembleia Municipal rejeita a moção de censura do PSD ao executivo: votos contra do PS, da CDU e do Livre, abstenção do BE e votos a favor do PSD, da IL e do Chega. A moção não era vinculativa. Na mesma sessão, Inês de Medeiros fala de um “problema estrutural” que ultrapassa o concelho e não avança data para a normalização.
26 jul 2026Primeiro alívio, anunciado pelos SMAS e pela câmara como “fase de testes e alívio gradual”: os cortes programados deixam de existir aos fins de semana e, nos restantes dias, a duração das interrupções é reduzida, passando “na generalidade, a decorrer entre a 1h e as 06h” (com exceção de 28 de julho, das 22h às 6h, por obra programada na rede). Começa a reposição faseada da rega.
31 jul 2026A situação de alerta é prorrogada até 31 de agosto, pelo calor previsto e pela época balnear, apesar de as reservas médias estarem em 78% (dado de 30 de julho). É “parcialmente revogada a norma relativa à interrupção noturna do abastecimento, que passa a poder ser reduzida ou suspensa nas zonas onde os indicadores operacionais demonstrem condições de segurança”, com aviso mínimo de 48 horas. Regressam a rega de jardins, os balneários e uma piscina municipal por dia útil.
2 ago 2026Fim dos cortes rotativos: os SMAS anunciam que, ao longo da semana seguinte, “não estão previstos cortes noturnos no abastecimento”, mantendo-se apenas a realização faseada das regas. Sublinham que “esta é apenas uma fase de testes” e que poderá ser necessário reativar as medidas “de imediato” se as reservas caírem.
6 ago 2026Os SMAS publicam um painel público com o nível médio das reservas do concelho, numa escala de cinco níveis, e divulgam os resultados de qualidade da água do 2.º trimestre: 868 análises, em conformidade com as normas. A situação de alerta mantém-se até 31 de agosto.

6 · A política: quem responde

Inês de Medeiros (PS) preside à câmara desde 2017, reeleita em outubro de 2025 para um 3.º e último mandato com 29,1%. O acordo de governação PS-CDU (17 nov 2025) entregou a presidência dos SMAS à CDU; foi também acordada uma auditoria externa ao universo municipal. Desde dezembro de 2025, os SMAS são presididos por Luís Palma (CDU), e a própria presidente da câmara é 1.ª vogal do conselho de administração. Palma presidiu à União das Freguesias de Laranjeiro e Feijó de 2013 a 2025, duas das freguesias agora com cortes. Em agosto de 2025, a CDU culpou “a recusa sistemática do atual executivo municipal em investir” nas redes de água. Desde dezembro de 2025, um vereador da CDU preside aos SMAS. A 6 de julho, Paulo Sabino (PSD), vereador e presidente do PSD de Almada, anunciou que avançaria com uma moção de censura formal ao executivo PS-CDU. Trata-se de uma acusação da oposição, não de um facto reconhecido pela Questiona. A 22 de julho, a moção de censura anunciada pelo PSD foi discutida na Assembleia Municipal e rejeitada de madrugada, após mais de cinco horas de debate: votos contra do PS, da CDU e do Livre, abstenção do BE e votos a favor do PSD, da IL e do Chega. A moção não era vinculativa, pelo que nunca teria efeito na continuidade do executivo.

Vereadores por partido, executivo 2025-2029 (primeiros vereadores do Chega em Almada; o BE perdeu o lugar).
A resposta do executivo
7 jul 2026 · Inês de Medeiros (PS), à TSF
“Vamos ter que ser ainda mais rigorosos e proibir mesmo qualquer rega, não é apenas a pública, a privada, para ver se no espaço de duas semanas, três, conseguimos recuperar alguma folga”
7 jul 2026 · Inês de Medeiros (PS), no mesmo dia, à CM
“Temos os nossos reservatórios em limites muitíssimo baixos, e que podem inclusivamente pôr em risco a própria infraestrutura”
3 jul 2026 · Inês de Medeiros (PS), a pedir desculpa na Antena 1 (RTP)
“peço desculpa naturalmente, pelo inconveniente que isto tem, justamente numa altura de grande, grande calor”
3 jul 2026 · Luís Palma (CDU), presidente dos SMAS, no mesmo dia do pedido de desculpa
“Há água mas não há com tanta pressão. Mas faltar água em absoluto só muito pontualmente e por curtos períodos do tempo”
A reação da oposição
7 jul 2026 · Bloco de Esquerda de Almada (comunicado)
“nem o PS, nem o PSD (que durante os últimos dois mandatos esteve à frente dos SMAS), nem a CDU foram capazes de responder com eficácia às reais necessidades do concelho”
7 jul 2026 · Vanessa Krause (PSD), presidente da Junta de Freguesia da Costa da Caparica
“Decidimos tomar esta decisão, hoje ponderada, porque a verdade é que quem deveria tomar esta iniciativa é a Proteção Civil e a Câmara Municipal, mas como não estão a tomar, nós decidimos agir”
6 jul 2026 · Paulo Sabino (PSD), vereador e presidente do PSD de Almada
“É de uma enorme incompetência e de uma enorme inércia. Depois destes episódios não resta grande solução senão avançar com uma moção de censura ao executivo do Partido Socialista e da CDU.”
9 jun 2026 · Junta de Freguesia da Costa da Caparica (Vanessa Krause, PSD)
“está identificado há muitos anos e não há desculpa para não ter sido ainda resolvido”
5 jul 2026 · Iniciativa Liberal Almada (comunicado, sem porta-voz identificado)
responsabiliza “mais de quatro décadas” de gestão PS e PCP, alega captações ilegais na rede pública e exige um plano com prazos concretos e “a boa gestão”, acusação partidária, citada sem adoção
26 jan 2026 · Paulo Sabino (PSD), no debate do orçamento dos SMAS
“insistiu em aumentar as taxas, mas não se vê retorno para as pessoas”
26 jan 2026 · Nuno Mendes (Chega), no mesmo debate de janeiro
“múltiplas falhas que houve ao longo de 2025, nomeadamente na Costa da Caparica e na Charneca”

Governo central: Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia disse estar em contacto “permanente” com os serviços de água; enquadrou Almada como problema local de captação/distribuição, não de seca: “temos reservas de água, porque choveu muito este inverno”. A ERSAR pediu esclarecimentos aos SMAS (tornado público a 4 de julho). A 7 de julho, o tom endureceu, apontando Almada como o pior caso do país: “Almada é talvez o município com maiores perdas de água, tem muito acima da média, mais de 35%”. Disse ainda que a câmara não tinha dado qualquer alerta prévio: “Não tínhamos nenhum alerta da Câmara de Almada sobre problemas, nem nenhum pedido”. O presidente da APA visitava Almada nessa mesma tarde para falar com o executivo municipal e ver que ajuda é necessária. A 8 de julho, a presidente respondeu, atribuindo a crise a desvios de rede inesperados (“Fomos surpreendidos com desvios de rede onde não estávamos a contar”) e, em resposta à ministra, afirmou que a câmara já tinha proposto no PRR um investimento de 10,7 milhões de euros para reforçar a rede, e pôs um número no problema (“Os reservatórios estão com 10% quando deviam estar a 60%”); a 9 de julho, admitindo uma “realidade difícil”, fixou como objetivo reduzir o consumo para metade nos próximos dias para os reservatórios recuperarem. A 10 de julho entra em cena um segundo órgão de fiscalização: a Provedoria de Justiça abriu uma análise às falhas de abastecimento, na sequência de queixas de moradores: “a situação encontra-se em análise na sequência da receção de queixas”.

7 · A resposta e o dinheiro

A solução oficial são furos: os dois furos de 2026 já estão em funcionamento, com mais 3 em licenciamento e 3 em projeto. O GW1 entrou ao serviço a 12 de julho; o segundo furo entrou em serviço até 19 de julho: nessa data a câmara tinha “dois novos furos” a injetar mais 120 m³/hora na rede, o dobro dos 60 m³/hora do primeiro. A data exata do arranque do segundo não foi divulgada (Renascença · JN · 19 jul 2026). Nas GOP, os dois furos de 2026 constam das GOP como Aroeira (Almada) e Corroios (Seixal); na Antena 1, autarquia e SMAS falaram em mais dois furos até ao fim de 2026. A câmara ativou um plano de contingência e criou um gabinete de crise, anunciados pelo vice-presidente Filipe Pacheco na reunião pública do executivo de 6 de julho, depois de a presidente já ter pedido desculpa publicamente pelos constrangimentos (Renascença). A 8 de julho, a câmara e os SMAS decretaram uma situação de alerta no concelho, com uma lista alargada de usos proibidos: rega de jardins e relvados (pública e privada), rega de campos de golfe, lavagem de veículos, enchimento de piscinas, duches e lava-pés de praia, fontes ornamentais e lagos artificiais, e lavagem de pavimentos, paredes e telhados exteriores (exceto obras de conservação) (RTP · ECO); o decreto garante prioridade de abastecimento a hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e outras infraestruturas críticas, com camiões-cisterna nas zonas mais sensíveis e reforço da articulação com os concelhos vizinhos. Entretanto, o racionamento:

  • “gestão solidária e rotativa da rede” (a expressão oficial)
  • redução de pressão em todo o concelho entre as 00h00 e as 06h00, para os reservatórios recuperarem
  • corte total do abastecimento em zonas específicas, das 22h00 às 06h00, com aviso prévio à população
  • fiscalização reforçada onde se regista consumo anómalo, sobretudo na Charneca da Caparica, Sobreda e Costa da Caparica
  • camiões-cisterna nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário
  • piquete 24h: 800 205 712
Como terminou

O regime de cortes rotativos terminou a 2 de agosto, 31 dias depois de ter começado, em três passos oficiais. A 26 de julho, com as reservas a recuperar, os cortes programados deixaram de existir aos fins de semana e, nos restantes dias, encolheram das 22h-6h para “na generalidade” a 1h-6h. A 31 de julho, a câmara prorrogou a situação de alerta até 31 de agosto, mas revogou parcialmente a norma dos cortes noturnos, que passaram a poder “ser reduzida ou suspensa nas zonas onde os indicadores operacionais demonstrem condições de segurança”, com aviso mínimo de 48 horas. A 2 de agosto, os SMAS anunciaram que, na semana seguinte, “não estão previstos cortes noturnos no abastecimento”. Nada disto é uma declaração de fim da crise: os próprios SMAS escrevem que “esta é apenas uma fase de testes” e que poderá ser necessário reativar as medidas “de imediato” se as reservas caírem. A situação de alerta mantém-se até 31 de agosto, a rega continua faseada e a estabilidade estrutural só é esperada no 1.º trimestre de 2027.

As reservas médias estavam em 78% a 30 jul 2026 (SMAS de Almada · CM Almada).

Novos furos de captação no plano dos SMAS (os dois furos de 2026 já a funcionar a 19 de julho, a injetar mais 120 m³/hora no total).

O dinheiro: o orçamento dos SMAS para 2026 é de 39,8 milhões de euros, dos quais 8,0 milhões de investimento (investimento em água e saneamento; não foi publicada desagregação só para abastecimento), aprovado na câmara a 26 jan e na assembleia municipal a 11 fev 2026. As tarifas estiveram congeladas em 2024 e subiram +2,1% (2025) e +1,8% (2026) (variações calculadas a partir dos tarifários oficiais dos SMAS (Edital n.º 1/2026)). A 9 de julho, em visita a Almada, a ministra do Ambiente anunciou que um novo furo entraria em serviço até ao fim de semana, aumentando a capacidade do sistema em cerca de 20%, com mais dois furos em licenciamento, um deles “muito grande”, que praticamente supriria a água necessária. O furo (GW1) entrou de facto em serviço a 12 de julho, a funcionar com um gerador e antes do previsto (estava apontado para o fim de julho); os SMAS quantificaram o reforço em mais 60 m³/hora e asseguraram ter feito os ensaios necessários para garantir a qualidade da água antes da ligação à rede. (Lusa · Observador · ECO · JN). A prazo, Luís Palma (SMAS) disse a 6 de julho que a crise deve estabilizar ainda em julho, à medida que o segundo furo entra em serviço; a presidente Inês de Medeiros falou, na noite de 7 de julho, em “duas a três semanas” para recuperar alguma folga. O Plano Estratégico de Abastecimento de Água prevê uma melhoria significativa no 1.º trimestre de 2027, e a resposta, segundo o próprio setor, será “mais eficaz” no próximo ano. Não foram anunciadas ligação em alta à EPAL/Águas do Tejo Atlântico nem dessalinização.

8 · A reação pública

Uma petição, “Fim dos cortes frequentes de água em Almada – Exigimos uma solução urgente”, reúne 3971 assinaturas (de 1500 a 3971 em dois dias), e a ERSAR pediu esclarecimentos aos SMAS. A 8 de julho, chegou à rua: cerca de 1.500 pessoas juntaram-se na Costa da Caparica e o cordão humano silencioso transformou-se numa marcha entre o Centro Comercial O Pescador e a rotunda de acesso ao IC21, com corte de trânsito e pedidos de demissão da presidente da câmara (Observador · euronews · SAPO), aos gritos de “Inês para a rua, Almada não é tua”. Nas plataformas de reclamações, os SMAS de Almada surgem no fundo da tabela da água. E a 9 de julho, a DECO exigiu compensações para os consumidores afetados: isenção da tarifa fixa nas faturas do período dos cortes, alargamento dos prazos de pagamento sem juros, suspensão de cortes por falta de pagamento em faturas reclamadas e a aplicação das compensações previstas no Regulamento de Qualidade de Serviço (DECO · Observador · SOL). Importante: isto mede a reação e o serviço ao cliente, não a qualidade da água, que cumpre.

Índice de satisfação /100 · Portal da Queixa (2026-07-08).

9 · As causas, em camadas

Calor + pico sazonal. Nas palavras do próprio operador: “as temperaturas elevadas e o aumento significativo da população sazonal”; “a procura global tem sido superior à água que conseguimos captar diariamente nos nossos furos”.

Um sistema 100% subterrâneo, com boa parte dos furos no concelho vizinho (Vale de Milhaços, Miratejo e Corroios, no Seixal; dados de 2019: 50-60 mil m³/dia em média, picos de 110 mil, perdas de rede ~28%). E reservas curtas: a redução de pressão das 00h às 06h existe precisamente para os reservatórios recuperarem.

Há ainda uma dependência que ultrapassa as fronteiras do concelho: segundo o município do Seixal, 28 dos 32 furos que abastecem Almada ficam em território do Seixal, sobretudo em Corroios. Os dois concelhos estão em litígio. O presidente do Seixal, Paulo Silva, defende que “Almada tem de pagar pela água que captura no Seixal” e lembra que Almada foi condenada em 2025, pelo Tribunal Administrativo, a pagar ao Seixal (decisão em recurso). A presidente de Almada, Inês de Medeiros, responde que “os impedimentos que o Seixal criou, criaram aqui um grande problema”, dando o exemplo de um furo que colapsou e que o Seixal terá impedido, por via judicial, de relocalizar, embora ressalve não acreditar “que tenha sido intencional”. A 10 de julho, o Seixal cedeu um furo para ajudar, que a APA estima produzir 1.800 a 2.000 m³/dia, cerca de 20% do défice. Duas versões, um facto comum: quase toda a água de Almada é captada noutro concelho.

Não é seca: no fim de maio de 2026, 0% do continente estava em seca (IPMA) e as albufeiras nacionais estavam a 86% (“Estamos muito bem preparados”, APA). A abundância nacional não chega às torneiras de Almada porque Almada não bebe de barragens.

Os avisos estão documentados: as roturas de 2025, o comunicado da Junta (9 jun), com o seu “identificado há muitos anos”, a petição criada a 21 de junho, antes da onda de calor. As tarifas estiveram congeladas em 2024 e subiram ~2% ao ano desde então; o investimento de 2026 é de 7,96 milhões de euros para água e saneamento. A nível nacional, a ERSAR aponta renovação de condutas a 0,5%/ano contra a meta de 1,5%.

Segue o dinheiro

Os SMAS de Almada e a câmara são compradores públicos, e os contratos são registos públicos. Vê a quem pagam:

Os contratos dos SMAS de Almada Os contratos do Município de Almada

Os números

  • 31 diasdurou o regime de cortes rotativos, de 2 de julho a 2 de agosto de 2026SMAS de Almada · 2 ago 2026
  • 100 mil+pessoas afetadas no picoRTP · 3 jul 2026
  • +4,3%crescimento do consumo de água, 1.º sem. 2026Jornal de Notícias · o mais alto em 75 anos
  • 9+ diasa avaria mais longa esteve por resolverO Almadense · reportada desde 26 jun
  • 12+ hcorte contínuo mais longoDiário de Notícias · Costa da Caparica
  • 46,6%das casas na Costa da Caparica são 2.ª residênciaINE · Censos 2021 (18,5% no país)
  • 28 de 32furos que abastecem Almada ficam no Seixal, o concelho vizinho com quem está em litígioMunicípio do Seixal · O Setubalense · 9 jul 2026
  • 3971assinaturas na petição contra os cortes (quase 4 mil a 6 jul)Petição Pública · 2026-07-08
  • 2+3+3furos novos: a funcionar / licenciamento / projetoSMAS · CM Almada · 19 jul 2026
  • 22 jula moção de censura do PSD é rejeitada (PS, CDU e Livre contra; BE abstém-se)O Setubalense · Observador · 2026
  • 31 agoaté quando se mantém a situação de alerta, já sem cortesCM Almada · 31 jul 2026
  • 38,7 °Ctemperatura de pico em Almada (contexto, não causa isolada)IPMA · 02/07/2026 (média nacional 37,3 °C)
Fontes dos dados
IPMAINESNIRH / APASMAS de AlmadaCM AlmadaPetição PúblicaRTP / Antena 1O AlmadenseSIC NotíciasJNTSFDiário de NotíciasNowCanalCMECO
MetodologiaFontes de dados
Os dados por trás desta história

Todos os números aqui saem de dados abertos oficiais. Não tens de acreditar em nós.

Interroga os dados: Água em Almada