Cortes de água em Almada.
Durante 31 dias, de 2 de julho a 2 de agosto de 2026, mais de 100 mil pessoas em Almada, sobretudo na Costa da Caparica, Charneca, Sobreda, Capuchos, Laranjeiro e Feijó, viveram cortes rotativos de água, alguns com mais de 12 horas seguidas. Não foi a qualidade da água (os SMAS de Almada têm o selo ERSAR de “Qualidade Exemplar da Água 2025”): foi capacidade. O consumo foi o mais alto em 75 anos e a procura concentrou-se onde a rede é mais frágil. Uma petição juntou quase 4 mil assinaturas, 1.500 pessoas saíram à rua e uma moção de censura foi apresentada e rejeitada. Os cortes pararam, mas a situação de alerta mantém-se até 31 de agosto e os SMAS chamam à calma atual “apenas uma fase de testes”. Eis o que mostram os dados abertos.
1 · A crise, em termos humanos
Mais de 12 horas seguidas sem água na Costa da Caparica (Diário de Notícias); a 6 de julho, há moradores que relatam seis dias sem água fiável (Observador). um caso relatado à DECO PROteste: uma casa na Costa da Caparica ficou sem água das 16h às 23h, 7 horas seguidas, sem aviso prévio. Uma rutura na rede na Charneca da Caparica (N377) foi reportada aos SMAS quase todos os dias desde 26 de junho, mais de 9 dias seguidos até 5 de julho, uma semana inteira antes do pico de calor. Cafés e restaurantes na Costa da Caparica, em plena época balnear, obrigados a fechar ou recusar serviço a meio do dia por não conseguirem garantir água para higiene e preparação de refeições (Diário de Notícias · O Almadense). A 7 de julho, a Unidade de Saúde Familiar Costa do Mar fechou às 13h por interrupção do fornecimento de água, segundo aviso oficial afixado à porta; as consultas da tarde e tratamentos de enfermagem foram remarcados (RTP), e os bombeiros voluntários de Cacilhas disponibilizaram água de um veículo tanque tático florestal com cerca de nove mil litros, ao longo de terça-feira, 7 de julho, a pedido da junta de freguesia, para necessidades básicas em casa, não para beber. A junta comprou também um bidão de inox de mil litros para distribuir aos moradores mais vulneráveis (Diário de Notícias). É isto que “cortes de água” significa, antes de qualquer gráfico de temperaturas ou tarifas:

última verificação: 6 de agosto. Os cortes rotativos terminaram a 2 de agosto, ao fim de 31 dias, mas a título de teste: os SMAS anunciaram que “não estão previstos cortes noturnos no abastecimento” e sublinharam, na mesma nota, que “esta é apenas uma fase de testes”, com as medidas a poderem ser reativadas “de imediato”. A situação de alerta mantém-se em vigor até 31 de agosto e a rega continua faseada. As reservas médias estavam em 78% a 30 de julho, e a 6 de agosto os SMAS passaram a publicar um painel público do seu nível. A estabilidade estrutural continua apontada para o 1.º trimestre de 2027. A moção de censura do PSD foi rejeitada a 22 de julho; a análise da Provedoria de Justiça não tem conclusões públicas
2 · A onda de calor
A temperatura máxima estimada em Almada chegou aos 38,7 °C a 02/07/2026, acima da média nacional de 37,3 °C nesse dia. O calor dispara o consumo de água (rega, duches, piscinas) no momento em que chega a população balnear. É um fator entre vários, não a história toda.
3 · A pressão do verão
Isto já não é só um dado de 2021. Os SMAS registaram o consumo de água mais elevado em 75 anos no concelho de Almada, um crescimento de 4,3% no 1.º semestre de 2026 face a 2025 (a média histórica é de ~2%/ano), segundo o Jornal de Notícias. A 8 de julho, a câmara cita um consumo diário superior a 300 litros por habitante em Almada, quase o dobro da média nacional (cerca de 180 litros por habitante/dia) (RTP · ECO). O crescimento concentra-se exatamente onde os cortes doem mais: Charneca da Caparica +15,0%, Sobreda e Lazarim +15,0%, Costa da Caparica +14,0%. Pragal, Almada, Cacilhas e Cova da Piedade mantiveram-se estáveis ou baixaram. A razão estrutural: o concelho de Almada, no total, é normal, com 17,0% de 2.ª residência, abaixo dos 18,5% do país, mas a carga concentra-se na orla, onde 6408 dos 13 765 alojamentos da Costa da Caparica (46,6%) são 2.ª residência. No verão enchem-se e a procura descola da população residente.
4 · O aquífero de que Almada bebe
O abastecimento de Almada é 100% subterrâneo, do aquífero T3 · Bacia do Tejo-Sado / Margem Esquerda: por isso a resposta são novos furos, não um novo rio. A rede oficial de quantidade tem 122 estações neste aquífero; só 52 estão ativas, e 12 ficam na área de Almada (4 ativas).
Estações de monitorização de águas subterrâneas · aquífero T3 (SNIRH / APA)…
Cada ponto é uma estação de monitorização do aquífero da margem esquerda do Tejo-Sado. Passa o rato para o código e o estado.
5 · Como se chegou aqui
Duas falhas diferentes, com um ano de intervalo. Em agosto de 2025, as condutas rebentaram: duas roturas de grandes dimensões cortaram a Costa da Caparica. Em 2026, o sistema ficou sem capacidade, nas palavras dos próprios SMAS: procura acima do que os furos captam por dia. A 5 de julho, o modo de 2025 regressou, somando-se ao racionamento. Os avisos antecedem a onda de calor em semanas. O racionamento durou 31 dias e foi desmontado em três passos oficiais, entre 26 de julho e 2 de agosto.
6 · A política: quem responde
Inês de Medeiros (PS) preside à câmara desde 2017, reeleita em outubro de 2025 para um 3.º e último mandato com 29,1%. O acordo de governação PS-CDU (17 nov 2025) entregou a presidência dos SMAS à CDU; foi também acordada uma auditoria externa ao universo municipal. Desde dezembro de 2025, os SMAS são presididos por Luís Palma (CDU), e a própria presidente da câmara é 1.ª vogal do conselho de administração. Palma presidiu à União das Freguesias de Laranjeiro e Feijó de 2013 a 2025, duas das freguesias agora com cortes. Em agosto de 2025, a CDU culpou “a recusa sistemática do atual executivo municipal em investir” nas redes de água. Desde dezembro de 2025, um vereador da CDU preside aos SMAS. A 6 de julho, Paulo Sabino (PSD), vereador e presidente do PSD de Almada, anunciou que avançaria com uma moção de censura formal ao executivo PS-CDU. Trata-se de uma acusação da oposição, não de um facto reconhecido pela Questiona. A 22 de julho, a moção de censura anunciada pelo PSD foi discutida na Assembleia Municipal e rejeitada de madrugada, após mais de cinco horas de debate: votos contra do PS, da CDU e do Livre, abstenção do BE e votos a favor do PSD, da IL e do Chega. A moção não era vinculativa, pelo que nunca teria efeito na continuidade do executivo.
Governo central: Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente e Energia disse estar em contacto “permanente” com os serviços de água; enquadrou Almada como problema local de captação/distribuição, não de seca: “temos reservas de água, porque choveu muito este inverno”. A ERSAR pediu esclarecimentos aos SMAS (tornado público a 4 de julho). A 7 de julho, o tom endureceu, apontando Almada como o pior caso do país: “Almada é talvez o município com maiores perdas de água, tem muito acima da média, mais de 35%”. Disse ainda que a câmara não tinha dado qualquer alerta prévio: “Não tínhamos nenhum alerta da Câmara de Almada sobre problemas, nem nenhum pedido”. O presidente da APA visitava Almada nessa mesma tarde para falar com o executivo municipal e ver que ajuda é necessária. A 8 de julho, a presidente respondeu, atribuindo a crise a desvios de rede inesperados (“Fomos surpreendidos com desvios de rede onde não estávamos a contar”) e, em resposta à ministra, afirmou que a câmara já tinha proposto no PRR um investimento de 10,7 milhões de euros para reforçar a rede, e pôs um número no problema (“Os reservatórios estão com 10% quando deviam estar a 60%”); a 9 de julho, admitindo uma “realidade difícil”, fixou como objetivo reduzir o consumo para metade nos próximos dias para os reservatórios recuperarem. A 10 de julho entra em cena um segundo órgão de fiscalização: a Provedoria de Justiça abriu uma análise às falhas de abastecimento, na sequência de queixas de moradores: “a situação encontra-se em análise na sequência da receção de queixas”.
7 · A resposta e o dinheiro
A solução oficial são furos: os dois furos de 2026 já estão em funcionamento, com mais 3 em licenciamento e 3 em projeto. O GW1 entrou ao serviço a 12 de julho; o segundo furo entrou em serviço até 19 de julho: nessa data a câmara tinha “dois novos furos” a injetar mais 120 m³/hora na rede, o dobro dos 60 m³/hora do primeiro. A data exata do arranque do segundo não foi divulgada (Renascença · JN · 19 jul 2026). Nas GOP, os dois furos de 2026 constam das GOP como Aroeira (Almada) e Corroios (Seixal); na Antena 1, autarquia e SMAS falaram em mais dois furos até ao fim de 2026. A câmara ativou um plano de contingência e criou um gabinete de crise, anunciados pelo vice-presidente Filipe Pacheco na reunião pública do executivo de 6 de julho, depois de a presidente já ter pedido desculpa publicamente pelos constrangimentos (Renascença). A 8 de julho, a câmara e os SMAS decretaram uma situação de alerta no concelho, com uma lista alargada de usos proibidos: rega de jardins e relvados (pública e privada), rega de campos de golfe, lavagem de veículos, enchimento de piscinas, duches e lava-pés de praia, fontes ornamentais e lagos artificiais, e lavagem de pavimentos, paredes e telhados exteriores (exceto obras de conservação) (RTP · ECO); o decreto garante prioridade de abastecimento a hospitais, centros de saúde, lares, bombeiros e outras infraestruturas críticas, com camiões-cisterna nas zonas mais sensíveis e reforço da articulação com os concelhos vizinhos. Entretanto, o racionamento:
- “gestão solidária e rotativa da rede” (a expressão oficial)
- redução de pressão em todo o concelho entre as 00h00 e as 06h00, para os reservatórios recuperarem
- corte total do abastecimento em zonas específicas, das 22h00 às 06h00, com aviso prévio à população
- fiscalização reforçada onde se regista consumo anómalo, sobretudo na Charneca da Caparica, Sobreda e Costa da Caparica
- camiões-cisterna nas zonas onde tal venha a revelar-se necessário
- piquete 24h: 800 205 712
O regime de cortes rotativos terminou a 2 de agosto, 31 dias depois de ter começado, em três passos oficiais. A 26 de julho, com as reservas a recuperar, os cortes programados deixaram de existir aos fins de semana e, nos restantes dias, encolheram das 22h-6h para “na generalidade” a 1h-6h. A 31 de julho, a câmara prorrogou a situação de alerta até 31 de agosto, mas revogou parcialmente a norma dos cortes noturnos, que passaram a poder “ser reduzida ou suspensa nas zonas onde os indicadores operacionais demonstrem condições de segurança”, com aviso mínimo de 48 horas. A 2 de agosto, os SMAS anunciaram que, na semana seguinte, “não estão previstos cortes noturnos no abastecimento”. Nada disto é uma declaração de fim da crise: os próprios SMAS escrevem que “esta é apenas uma fase de testes” e que poderá ser necessário reativar as medidas “de imediato” se as reservas caírem. A situação de alerta mantém-se até 31 de agosto, a rega continua faseada e a estabilidade estrutural só é esperada no 1.º trimestre de 2027.
As reservas médias estavam em 78% a 30 jul 2026 (SMAS de Almada · CM Almada).
O dinheiro: o orçamento dos SMAS para 2026 é de 39,8 milhões de euros, dos quais 8,0 milhões de investimento (investimento em água e saneamento; não foi publicada desagregação só para abastecimento), aprovado na câmara a 26 jan e na assembleia municipal a 11 fev 2026. As tarifas estiveram congeladas em 2024 e subiram +2,1% (2025) e +1,8% (2026) (variações calculadas a partir dos tarifários oficiais dos SMAS (Edital n.º 1/2026)). A 9 de julho, em visita a Almada, a ministra do Ambiente anunciou que um novo furo entraria em serviço até ao fim de semana, aumentando a capacidade do sistema em cerca de 20%, com mais dois furos em licenciamento, um deles “muito grande”, que praticamente supriria a água necessária. O furo (GW1) entrou de facto em serviço a 12 de julho, a funcionar com um gerador e antes do previsto (estava apontado para o fim de julho); os SMAS quantificaram o reforço em mais 60 m³/hora e asseguraram ter feito os ensaios necessários para garantir a qualidade da água antes da ligação à rede. (Lusa · Observador · ECO · JN). A prazo, Luís Palma (SMAS) disse a 6 de julho que a crise deve estabilizar ainda em julho, à medida que o segundo furo entra em serviço; a presidente Inês de Medeiros falou, na noite de 7 de julho, em “duas a três semanas” para recuperar alguma folga. O Plano Estratégico de Abastecimento de Água prevê uma melhoria significativa no 1.º trimestre de 2027, e a resposta, segundo o próprio setor, será “mais eficaz” no próximo ano. Não foram anunciadas ligação em alta à EPAL/Águas do Tejo Atlântico nem dessalinização.
8 · A reação pública
Uma petição, “Fim dos cortes frequentes de água em Almada – Exigimos uma solução urgente”, reúne 3971 assinaturas (de 1500 a 3971 em dois dias), e a ERSAR pediu esclarecimentos aos SMAS. A 8 de julho, chegou à rua: cerca de 1.500 pessoas juntaram-se na Costa da Caparica e o cordão humano silencioso transformou-se numa marcha entre o Centro Comercial O Pescador e a rotunda de acesso ao IC21, com corte de trânsito e pedidos de demissão da presidente da câmara (Observador · euronews · SAPO), aos gritos de “Inês para a rua, Almada não é tua”. Nas plataformas de reclamações, os SMAS de Almada surgem no fundo da tabela da água. E a 9 de julho, a DECO exigiu compensações para os consumidores afetados: isenção da tarifa fixa nas faturas do período dos cortes, alargamento dos prazos de pagamento sem juros, suspensão de cortes por falta de pagamento em faturas reclamadas e a aplicação das compensações previstas no Regulamento de Qualidade de Serviço (DECO · Observador · SOL). Importante: isto mede a reação e o serviço ao cliente, não a qualidade da água, que cumpre.
9 · As causas, em camadas
Calor + pico sazonal. Nas palavras do próprio operador: “as temperaturas elevadas e o aumento significativo da população sazonal”; “a procura global tem sido superior à água que conseguimos captar diariamente nos nossos furos”.
Um sistema 100% subterrâneo, com boa parte dos furos no concelho vizinho (Vale de Milhaços, Miratejo e Corroios, no Seixal; dados de 2019: 50-60 mil m³/dia em média, picos de 110 mil, perdas de rede ~28%). E reservas curtas: a redução de pressão das 00h às 06h existe precisamente para os reservatórios recuperarem.
Há ainda uma dependência que ultrapassa as fronteiras do concelho: segundo o município do Seixal, 28 dos 32 furos que abastecem Almada ficam em território do Seixal, sobretudo em Corroios. Os dois concelhos estão em litígio. O presidente do Seixal, Paulo Silva, defende que “Almada tem de pagar pela água que captura no Seixal” e lembra que Almada foi condenada em 2025, pelo Tribunal Administrativo, a pagar ao Seixal (decisão em recurso). A presidente de Almada, Inês de Medeiros, responde que “os impedimentos que o Seixal criou, criaram aqui um grande problema”, dando o exemplo de um furo que colapsou e que o Seixal terá impedido, por via judicial, de relocalizar, embora ressalve não acreditar “que tenha sido intencional”. A 10 de julho, o Seixal cedeu um furo para ajudar, que a APA estima produzir 1.800 a 2.000 m³/dia, cerca de 20% do défice. Duas versões, um facto comum: quase toda a água de Almada é captada noutro concelho.
Não é seca: no fim de maio de 2026, 0% do continente estava em seca (IPMA) e as albufeiras nacionais estavam a 86% (“Estamos muito bem preparados”, APA). A abundância nacional não chega às torneiras de Almada porque Almada não bebe de barragens.
Os avisos estão documentados: as roturas de 2025, o comunicado da Junta (9 jun), com o seu “identificado há muitos anos”, a petição criada a 21 de junho, antes da onda de calor. As tarifas estiveram congeladas em 2024 e subiram ~2% ao ano desde então; o investimento de 2026 é de 7,96 milhões de euros para água e saneamento. A nível nacional, a ERSAR aponta renovação de condutas a 0,5%/ano contra a meta de 1,5%.
Segue o dinheiro
Os SMAS de Almada e a câmara são compradores públicos, e os contratos são registos públicos. Vê a quem pagam:
Os números
- 31 diasdurou o regime de cortes rotativos, de 2 de julho a 2 de agosto de 2026SMAS de Almada · 2 ago 2026
- 100 mil+pessoas afetadas no picoRTP · 3 jul 2026
- +4,3%crescimento do consumo de água, 1.º sem. 2026Jornal de Notícias · o mais alto em 75 anos
- 9+ diasa avaria mais longa esteve por resolverO Almadense · reportada desde 26 jun
- 12+ hcorte contínuo mais longoDiário de Notícias · Costa da Caparica
- 46,6%das casas na Costa da Caparica são 2.ª residênciaINE · Censos 2021 (18,5% no país)
- 28 de 32furos que abastecem Almada ficam no Seixal, o concelho vizinho com quem está em litígioMunicípio do Seixal · O Setubalense · 9 jul 2026
- 3971assinaturas na petição contra os cortes (quase 4 mil a 6 jul)Petição Pública · 2026-07-08
- 2+3+3furos novos: a funcionar / licenciamento / projetoSMAS · CM Almada · 19 jul 2026
- 22 jula moção de censura do PSD é rejeitada (PS, CDU e Livre contra; BE abstém-se)O Setubalense · Observador · 2026
- 31 agoaté quando se mantém a situação de alerta, já sem cortesCM Almada · 31 jul 2026
- 38,7 °Ctemperatura de pico em Almada (contexto, não causa isolada)IPMA · 02/07/2026 (média nacional 37,3 °C)
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