O mapa do ar condicionado.
Nos Censos 2021, 16,6% dos alojamentos em Portugal tinham ar condicionado – mas a média nacional esconde um fosso enorme: de 0,8% em Machico a 56,1% em Campo Maior. O interior alentejano, quente e seco, no topo; o Norte ameno e húmido e as ilhas atlânticas no fundo. E é a última contagem oficial, de há 5 anos: desde então, cada verão bateu recordes de calor, por isso lê-se isto como o mínimo, não como o valor de hoje.
1 · O mapa
A percentagem de alojamentos com ar condicionado em cada um dos mais de 300 concelhos do país, segundo os Censos 2021 do INE. As cores mais escuras marcam onde o ar condicionado é mais comum – sobretudo o sul mais quente. O cinzento é ausência de dados.
Lares com ar condicionado (Censos 2021)…
Passa o rato por um concelho para ver o valor. Cinzento: sem dados.
2 · Porque isto é um mínimo, não o valor de hoje
Lê uma coisa antes de confiares em qualquer número aqui: isto é um retrato de 2021, com cerca de 5 anos, e não há contagem nacional mais recente. Os Censos fazem-se de dez em dez anos, por isso o próximo só chega em 2031. Nos anos entretanto decorridos, a razão para comprar um aparelho só cresceu: 2022 foi o ano mais quente em Portugal continental desde que há registos, em 1931, com mais de 90 dias em onda de calor; 2023 foi o segundo mais quente de sempre; e os verões de 2024 e 2026 trouxeram novas ondas de calor de vários dias, com picos acima dos 40 °C. O ar condicionado é barato de instalar e cada vez mais vem de série nas casas novas (36,5% das construídas na última década já o tinham em 2021, contra 16,6% no total), e o mercado confirma-o: as vendas subiram cerca de 9% em volume e 19% em valor só em 2025 (Euromonitor), e durante a onda de calor do verão de 2026 as lojas reportaram ventoinhas e aparelhos portáteis a esgotar. A percentagem real em 2026 é, portanto, mais alta do que o mapa mostra em quase todo o lado – mas ninguém voltou a contar. Datamo-lo com honestidade, em vez de o inflar com um palpite.
3 · O fosso Sul-Norte
O ar condicionado em Portugal é, antes de tudo, um mapa do clima. No Alentejo e no Algarve – quentes, secos e longe da brisa marítima – cerca de um alojamento em cada três tinha ar condicionado em 2021, quase o dobro dos 16,6% nacionais. No Noroeste ameno e chuvoso e nas serras do interior é raridade, e nas ilhas atlânticas ainda mais raro: a Madeira foi a região mais baixa de todas, com 2,5%. No total, 126 concelhos ainda estavam abaixo de 10% em 2021 e apenas 14 chegavam aos 40% ou mais. À medida que os verões apertam, essa amplitude é também, cada vez mais, um mapa de quem pode dar-se ao luxo de se refrescar.
4 · Onde é mais, e menos, comum
O topo da tabela está quase todo no Alentejo e no Algarve; o fundo mistura o interior húmido do Norte com as ilhas, onde Machico fecha a lista com 0,8%.
- 01Campo Maior56,1%
- 02Mourão52,6%
- 03Reguengos de Monsaraz50,4%
- 04Elvas50,1%
- 05Moura49,7%
- 06Vila Viçosa47,6%
- 07Évora46,1%
- 08Castelo Branco44,3%
- 09Borba44,2%
- 10Crato44,1%
- 01Machico0,8%
- 02Santana0,9%
- 03Câmara de Lobos1,1%
- 04Ribeira Brava1,1%
- 05Porto Moniz1,1%
- 06Lajes das Flores1,3%
- 07Nordeste1,5%
- 08São Vicente1,6%
- 09Ponta do Sol1,7%
- 10Montalegre1,7%
5 · O que o mapa não mostra
Ter ar condicionado não é o mesmo que poder ligá-lo: este mapa conta a instalação, não o conforto nem a fatura. Arrefecer é, cada vez mais, uma questão de meios. A pobreza energética deixa muitas famílias sem conseguir refrescar a casa, e equipá-la ficou mais caro em meados de 2025, quando o IVA reduzido de 6% sobre bombas de calor e ar condicionado reversível terminou e voltou aos 23% normais (o Parlamento já recomendou repor a taxa mais baixa). Em julho de 2026, os médicos de saúde pública diziam-no sem rodeios, "a climatização salva vidas", e pediam espaços públicos climatizados para idosos e vulneráveis, à medida que as ondas de calor fazem subir os internamentos hospitalares e as mortes: só no verão de 2022, três ondas de calor foram associadas a cerca de 2.400 óbitos, na maioria idosos (INSA/DGS).
É também um mapa da eletricidade. O ar condicionado é um dos grandes motores do pico de consumo no verão – tanto que Portugal chegou a impor 25 °C como mínimo ao ar condicionado dos edifícios públicos para poupar energia (medida de 2022), já que cada grau abaixo disso acrescenta cerca de 7% ao consumo – e esse pico chega precisamente quando as mesmas ondas de calor pressionam o abastecimento de água. O mapa de quem liga o ar condicionado e o mapa de quem fica sem água são desenhados pelo mesmo tempo.
Os números
- 16,6%dos alojamentos em Portugal tinham ar condicionadoINE · Censos 2021 (83,4% não tinham)
- 0,8–56,1%do concelho menos ao mais equipado (Machico a Campo Maior)INE · Censos 2021
- 31,7% / 32,6%Alentejo e Algarve, quase o dobro da média nacionalINE · Censos 2021
- 2,5%Madeira, a região mais baixaINE · Censos 2021
- 126concelhos ainda abaixo de 10% em 2021Questiona sobre dados INE
- 5 anosdesde o retrato; o próximo recenseamento só em 2031INE
- 2022o ano mais quente em Portugal continental desde 1931IPMA · 90+ dias em onda de calor
- +19%vendas de ar condicionado em 2025, em valor (+9% em volume)Euromonitor
- 23%IVA sobre um ar condicionado novo desde meados de 2025 (era 6%)medida do OE 2022 terminou a 30 jun 2025
- ~2.400mortes associadas às ondas de calor do verão de 2022, sobretudo idososINSA / DGS